A cultura sempre representou um aspecto importante do micronacionalismo É natural que isto aconteça tendo em vista o viés humanista da maioria dos adeptos deste hobby ao longo do tempo. Mesmo nestes tempos de decadência e dificuldade a cultura continua sendo importante, por mais que o nível da qualidade da produção cultural esteja caindo.
O principal indício desta decadência ao longo d tempo é a substituição da produção cultural original de grande qualidade que já se teve pela cultura do control-c/control-v que faz suas vítimas em especial na Wikipédia e junto aos incautos micronacionalistas. Que este copiar e colar seja aplaudido é um grave sinal do quanto houve uma involução no nível cultural médio dos micronacionalistas, ver que muitas vezes até o copiar/colar de outro é, por sua vez, copiado e colado por um terceiro é sinal da fragilidade moral.
Mas para além de certa sensação de desânimo é preciso verificar que na verdade perdeu-se em algum momento a definição do que é “cultura micronacional”. É evidente que há uma relação fortíssima entre a cultura do mundo real e a do MicroMundo, não existe uma forma de pintar ou escrever diferente, não há regras estéticas distintas para avaliar uma microprodução de uma realização concreta
Queria inverter pergunta mais óbvia e questionar se uma “obra de arte” micronacional seria uma obra de arte macro também. Paradoxalmente a resposta parece ser sim, pois se não há distinção entre que é micronacionalismo ou de outro passado linha divisória então ambas seriam julgadas pelas mesma especificações. Assim seria estranho imaginar que alguém, podendo ser artista macro, preferisse ficar restrito a micromundo.
Como ser artista não é algo para todos, mas algo restrito a uma pequena parcela da humanidade que recebeu os seus dons – por mais que a “indústria cultural”tente dizer contrário e provar esta tese chamando de artistas gente sem talento algum alavancada pela publicidade – mas quase qualquer um com alguma formação e informação pode apreciar a arte então é natural que no ambiente populacionalmente restrito do micronacionalismo a crítica, a resenha e o ensaio sejam os gêneros mais comuns de manifestações artísticas.
Felizmente quase nenhum conhecimento é necessário para ser artista, visto tratar-se d dom transcendente que a formação acadêmica costuma piorar ao invés de melhorar – vide por exemplo o caso de Rebolo que pintava muito melhor e com mais originalidade quando era pintor de paredes profissionalmente e pintor de quadros nas horas vagas do que depois de ganhar um bolsa de estudos na França. Infelizmente a crítica e o ensaio, por outro lado, exige o estudo e a formação intelectual para apreciar em grau mais alto os dons do espírito, é o esforço do homem comum dedicado e esforçado a tentar se aproximar do mundo no qual vivem os homens de gênio.
Estas condições também dão tom de serem muito mais comuns os comentários sobre as infindáveis produções culturais macro do que sobre as cada vez mais raras ações culturais micronacionais. A produção cultural típica do micronacionalismo e jornal ou a revista com textos originais, mas do que museu e a biblioteca. Ainda que sejam apreciáveis os projetos que visem dar acesso a obras de arte macro aos micronacionalistas – até quando feitas pelo método do copiar/colar e não pela avaliação criteriosa – são ações limitadas em especial quando realizadas pelo critério da quantidade – que tem sido padrão básico do micronacionalismo – e não pela seleção criteriosa.
Estudo, dedicação, paciência, as doses certas de objetividade e subjetividade, bom senso e bom gosto são valores em falta e assim é natural que tantas publicações e iniciativas positivas e ricas que o micronacionalismo já teve no passado tenham se resumido a algumas bem poucas das quais só ínfima fração é razoável e menos ainda seja original.
Há contudo um ramo n qual a cultura micronacional consegue caracterizar toda a sua especifidade e, a meu ver, é talvez a única manifestação típica daquilo que se poderia chamar verdadeiramente de Cultura Micronacional que é a História Fictícia. Ainda que exija estudo, pesquisa (como um bom livro também requer) a História Fictícia quando bem feita é o que poderia chegar mais perto desta “ obra-prima”micronacional na medida em que só será boa de fato se tiver em seu contexto todas as qualidades de um bom conto mas também demanda um conjunto de limitações e regras que a tornam quase impossível de ser realizada fora do micronacionacinalismo. De cara alguém eu próprio por sinal – possa retrucar que a descrição de países e viagens imaginárias tem longa tradição como gênero literário desde antes da literatura – em todas as mitologias e neste livro fundador da literatura que é a Odisseia e em tantos ouros como os descritos no excepcional Dicionário de Lugares Imaginários de Manguel e Guadalupi – a História Fictícia tem algumas características próprias na medida em que devem se harmonizar com uma história coletiva, não individual.
Por ser algo que pode ser apreciado até por quem jamais ouviu falar de micronações mas ó faz pleno sentido dentro da comunidade micronacional é que a História Fictícia tem este importante papel na definição do que é, foi ou será uma “Cultura Micronacional”.
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